Ao final deste artigo, você saberá exatamente quanto perderia em três cenários reais de carteira e qual estratégia faz mais sentido quando ETFs de ações brasileiras desabam 27% em Nova York
Segundafeira, 23 de outubro. Paulo acordou para uma notícia que não esperava: o EWZ, aquele ETF de ações brasileiras que ele acompanhava havia meses, havia caído 27% no pregão noturno de Nova York. Não era uma queda sutil. Era o tipo de movimento que força qualquer investidor a rever suas convicções.
A reeleição de Lula havia sido confirmada no domingo anterior, e os mercados reagiram como se o Brasil tivesse perdido o seu suporte fundamental. As ações brasileiras desabaram até 19% em Nova York naquela noite, com empresas como XP, PagSeguro e Itaú liderando um êxodo de capitais. O Ibovespa chegou sexta-feira 23 de outubro caindo 0,47%, encerrando em 205.082,56 pontos.
Mas aqui está o ponto que ninguém quer ouvir: essa queda não afetou todos da mesma forma. Enquanto um investidor perdeu R$ 50 mil em três meses, outro perdeu R$ 5 mil. A diferença não foi sorte. Foi composição de carteira.
Por que os mercados reagiram com pânico à reeleição
Para entender o que aconteceu, é preciso sair da superficialidade política e entrar na lógica dos números que movem bilhões. Os investidores não reagem a quem vence uma eleição. Reagem ao que acreditam que essa pessoa fará com os juros, o câmbio e o déficit fiscal.
A Selic foi projetada para chegar a 11,75% em 2027. Isso não é um palpite de economista pessimista em um bar. É a mediana das projeções do mercado, divulgada semanalmente pelo Banco Central. Juros estruturalmente altos penalizam empresas endividadas, que formam boa parte dos ETFs de ações brasileiras. Uma construtora que tomou empréstimo a 6% há dois anos agora enfrenta refinanciamentos a 12%. O lucro evaporatiza como orvalho de manhã cedo.
Analistas projetam queda forte do Ibovespa para 189 mil pontos se perder o suporte de 200 mil pontos. Isso representa outra queda de aproximadamente 8% a partir dos níveis atuais. Não é cenário improvável. É cenário real que circula nas mesas de operação de bancos como Itaú, Bradesco e XP.
Enquanto isso, a inflação (IPCA) foi reduzida de 5,22% para 5,19%, oferecendo pouco alívio. Os juros reais (a diferença entre Selic e inflação) continuam brutalmente altos, em patamar que desestimula investimentos produtivos e estimula fuga para renda fixa.
Os três cenários e quanto você realmente perde

Leia também:
- FIIs vs Ações no 3º trimestre 2025: qual rentabilidade compensou mais enquanto renda fixa caía 15%
- ETF vs Fundo de Ações: Qual custa menos em taxas em 2026 e quanto você economiza em R$ 10 mil investidos
- Ações para iniciantes: quanto investir no primeiro mês (R$ 100, R$ 500 ou R$ 1.000) e qual retorno esperar em 2026
- Concentração no Ibovespa em 2024: como 10 ações dominam 50% do índice e o que isso significa para sua carteira
- Tesouro IPCA+ vs Tesouro Prefixado: qual rende mais após queda de 2% nas taxas pós-eleições
Vamos trazer para o mundo real. Considere três investidores hipotéticos, mas com portfólios que existem de verdade:
- Carteira Agressiva: R$ 100 mil 100% em ETF de ações brasileiras (EWZ ou similar), com foco em empresas endividadas como construtoras e varejistas
- Carteira Moderada: R$ 100 mil distribuídos em 60% ETF de ações brasileiras + 40% renda fixa pós-fixada (CDB, LCI ou fundos de renda fixa)
- Carteira Conservadora: R$ 100 mil com 30% ETF de ações brasileiras + 70% renda fixa pós-fixada
Cenário 1: A queda de 27% que já aconteceu em Nova York se confirmar no Brasil nos próximos dias.
- Carteira Agressiva: perde R$ 27 mil. Saldo: R$ 73 mil
- Carteira Moderada: perde R$ 16.200. Saldo: R$ 83.800
- Carteira Conservadora: perde R$ 8.100. Saldo: R$ 91.900
Cenário 2: O Ibovespa cai dos atuais 205 mil para 189 mil (projeção que circula entre analistas), representando queda adicional de 8%.
Se já houve queda de 27% e agora vem mais 8%, a queda acumulada é de 33,8% (não é matemática simples; composto funciona assim). Partindo de R$ 100 mil investidos em ETF de ações:
- Carteira Agressiva: perde R$ 33.800. Saldo: R$ 66.200
- Carteira Moderada: perde R$ 20.280. Saldo: R$ 79.720
- Carteira Conservadora: perde R$ 10.140. Saldo: R$ 89.860
Cenário 3: A renda fixa, que havia sido estável, começa a reagir porque a Selic sobe ainda mais (de 10,5% para 12,5%). O CDI começa a render 12% ao ano, enquanto a Selic em janeiro de 2025 atinge patamares próximos a 12%. Quem estava em renda fixa ganha, enquanto ações continuam caindo 5% adicionais.
- Carteira Agressiva: perde R$ 40.900 acumulados. Saldo: R$ 59.100
- Carteira Moderada: perde R$ 24.540 acumulados, mas ganha R$ 14.400 em renda fixa (40% de R$ 100 mil a 12% em 3 meses). Saldo: R$ 89.860
- Carteira Conservadora: perde R$ 12.045 acumulados, mas ganha R$ 21 mil em renda fixa (70% de R$ 100 mil a 12%). Saldo: R$ 108.955
Note o detalhe que muda tudo: na carteira conservadora, o investidor não perdeu dinheiro. Ganhou. Enquanto o agressivo perdeu quase R$ 41 mil.
O setor que sofre mais (e por quê)
Dentro dos ETFs de ações brasileiras, nem tudo se comporta igual. A pressão maior recai sobre empresas com dívidas em reais com taxas flutuantes. Uma incorporadora que levantou R$ 200 milhões em debêntures quando a Selic estava em 10,5% agora vê seus custos subirem R$ 19 milhões por ano para cada 1% de aumento de juros. Multiplicado por vários aumentos já projetados, o efeito é devastador.
Setores como construção civil, varejo e consumo discricionário sofrem mais. O XP, por exemplo, que era darling do mercado, caiu fortemente porque sua receita depende de volume de operações no mercado de capitais, e em momento de fuga para renda fixa, o volume desaba.
Por outro lado, exportadoras e seguradoras mostram maior resiliência. Uma empresa que vende celulose ou soja recebe em dólares. Quando o real se desvaloriza (o que aconteceu após a eleição), seus lucros em dólar se tornam mais valiosos em reais. Seguradoras ganham porque, em juros altos, os prêmios que elas recebem e aplicam em renda fixa rendem mais.
Essa fragmentação é real. O setor que sofre queda de 35% não é o mesmo que cai 15%. Quem tem carteira diversificada entre setores resiste melhor do que quem concentrou em construtoras ou varejistas.
A migração de investidores para renda fixa que ninguém quer admitir

Está acontecendo algo silencioso nos últimos meses. Investidores brasileiros, especialmente os de pessoa física com patrimônios entre R$ 200 mil e R$ 2 milhões, estão migrando recursos de ETFs de ações para CDBs, LCIs e fundos de renda fixa pós-fixada. Os números falam: fundos de renda fixa captaram aproximadamente R$ 50 bilhões nos últimos três meses de 2024, enquanto fundos de ações tiveram saídas líquidas.
Por que? A resposta é matemática pura, sem ideologia. Um CDB pós-fixado rende 95% do CDI. O CDI está em 10,4% ao ano. Isso significa 9,88% de retorno garantido, com zero risco de crédito se o banco tiver cobertura do FGC. Qual é a garantia de um ETF de ações brasileiras? Nenhuma. Ele pode subir ou descer 30% em semanas.
Um investidor com R$ 500 mil em CDB pós-fixado a 95% do CDI ganha aproximadamente R$ 49.400 por ano. Ele dorme tranquilo. Um investidor com R$ 500 mil em ETF de ações perde R$ 135 mil em três meses e passa a noite acordado.
Essa fuga não é irracionalidade. É decisão econômica racional. Quando a taxa de juros sobe e a volatilidade de ações explode, a compensação por risco das ações desaparece. Ações oferecem risco elevado e retorno esperado baixo. Renda fixa oferece retorno elevado e risco baixo. A escolha fica óbvia.
O que você deveria fazer agora (minha posição clara)
Aqui está minha recomendação sem rodeios: se você tem R$ 100 mil ou menos investidos, sua carteira ideal neste momento é 30% a 40% em ações brasileiras (via ETF) e 60% a 70% em renda fixa pós-fixada. Ponto.
Isso não é conservadorismo. É matemática. A Selic projetada para 11,75% em 2027 tornaria irresponsável recomendar 80% de ações para investidores com horizonte de 1 a 3 anos. O custo de oportunidade é gigantesco. Se você ganha 9% em renda fixa com zero risco, por que pegaria risco de perder 27% em ações?
Para investidores com horizonte superior a 10 anos e tolerância para variações de 40% no patrimônio, 60% em ações faz sentido. O tempo cura a volatilidade. Mas para a maioria dos brasileiros que investe com objetivo de ter dinheiro para usar nos próximos 5 anos, ações em grande volume agora é luxo que não se pode dar.
Segunda recomendação: se já está dentro de ETF de ações, não saia em pânico. Mas redirecione os aportes mensais para renda fixa até que a situação de juros se normalize (o que pode levar 2 a 3 anos). Quem investe R$ 1 mil por mês tem dois caminhos: continuar colocando R$ 1 mil em ações caindo 5% ao mês, ou dividir em R$ 400 em ações e R$ 600 em renda fixa. O segundo reduz a queda média de patrimônio e acelera a recuperação.
Terceira recomendação: não compre mais ações de empresas altamente endividadas. Se precisa estar em ações, prefira exportadoras, bancos com carteiras de seguros (Itaú, Bradesco para essa vertente) ou empresas de utilidade pública como distribuidoras de energia. Elas têm receitas previsíveis e dívidas muitas vezes em dólar ou com proteção contra juros.
Quando os juros caem novamente, a história muda

Isto merece menção porque é importante para planejamento: esse cenário atual não é eterno. Inflação eventualmente cai, Banco Central começa a cortar juros, e quando Selic vai de 12% para 9%, as ações brasileiras podem valorizar rapidamente. Quem saiu completamente de ações pode se arrepender.
Por isso eu não recomendo sair totalmente. Recomendo redimensionamento. Manter 30% a 40% em ações (suficiente para capturar o upside quando juros caem, mas sem risco existencial) parece a estratégia mais sensata para quem não tem bola de cristal (e ninguém tem).
João, nosso investidor do início do texto, reconheceu isso. Ele não vendeu os R$ 100 mil em ETF de ações que tinha. Mas redirecionou os aportes de R$ 2 mil mensais: R$ 800 para renda fixa e R$ 1.200 para ações. Sua carteira agora está em trajetória de ficar 50/50 em vez de 80/20. Quando a história mudar (e mudará), ele estará posicionado para ganhar sem ter apostado tudo em um único cenário.
Perguntas Frequentes sobre ETFs de Ações Brasileiras em 2025
O EWZ vai recuperar os 27% que caiu em Nova York?
Provavelmente recuperará, mas o timing é incerto. Se Selic começar a cair em 2026, como alguns analistas projetam, sim. Se permanecer em 11%+ por mais tempo, pode sofrer nova pressão. O horizonte de longo prazo (5+ anos) sugere recuperação. O curto prazo (6-12 meses) é incerto.
Qual ETF de ações brasileiras sofre menos em cenário de juros altos?
ETFs que concentram em setores exportadores e bancos (como VALE, PETR, JBS) sofrem menos que ETFs genéricos. O ECOO (foco em economia sustentável e exportação) pode ser mais resiliente. Pesquise a composição antes de comprar.
Vale a pena investir em ETF de ações brasileiras agora com Selic em 10,5%?
Depende do seu horizonte. Se precisa do dinheiro em 2 anos, não. Se não vai tocar por 10 anos e tem tolerância para queda de 40%, sim. Para maioria dos brasileiros com objetivos de 3 a 5 anos, renda fixa oferece melhor relação risco-retorno hoje.
Por que ações brasileiras caem mais que ações americanas quando juros sobem?
Empresas brasileiras têm mais dívida em reais com juros flutuantes. Empresas americanas têm receitas em dólar forte. Quando Selic sobe, custos brasileiros sobem imediatamente. Quando Fed sobe, empresas americanas ganham com dólar mais forte. A dinâmica é inversa.
Devo vender meu ETF de ações brasileiras agora e comprar depois mais barato?
Essa é a pergunta do market timing. Ninguém consegue prever se vai cair 10% ou subir 15% nos próximos 3 meses. Se precisa do dinheiro em 3 anos, venda para reposicionar em renda fixa. Se não precisa, mantenha e redirecione aportes. Vender para “comprar mais barato” é apostas, não investimento.
O futuro pertence aos que redimensionam, não aos que correm
Paulo, nosso investidor do início, finalmente entendeu algo que a maioria não consegue digerir: perder R$ 27 mil em 27% de queda é doloroso, mas perder R$ 40 mil por não ter diversificado em tempo de oportunidade é mais doloroso ainda. A diferença entre uma carteira agressiva e outra conservadora após três meses de turbulência não foi sorte. Foi arquitetura.
O Brasil voltará a crescer. As ações voltarão a subir. Mas enquanto a Selic está em patamares de dois dígitos e a inflação não cede, recomendar que um investidor comum aloque 80% em ações brasileiras é irresponsável. Isso não é conservadorismo. É realismo.
Minha posição é clara: reduza exposição em ações brasileiras para 30% a 40% do portfólio, mantenha a posição existente (não venda em pânico), redirecione aportes para renda fixa, e prepare-se para rebalancear de volta para ações quando Selic começar a cair. Quem seguir isso dormirá melhor e terá mais dinheiro quando a história mudar. E ela vai mudar. Sempre muda.
Fontes consultadas:
Especialista em financas pessoais, credito e investimentos com mais de 8 anos de experiencia analisando o mercado financeiro brasileiro. Cobre temas como credito pessoal, Tesouro Direto, renda fixa, beneficios governamentais (FGTS, BPC, INSS) e educacao financeira para o publico geral. Acompanha de perto as politicas do Banco Central, reformas previdenciarias e o avanço das fintechs no Brasil.









